Quilombo
Explosão de Cultura em Limoeiro
O Quilombo ou Dança dos Quilombos, existente em
Alagoas, inclusive o de Limoeiro de Anadia, é considerado por muitos
historiadores como uma sobrevivência do Quilombo dos Palmares, situado na Serra
da Barriga, na atual cidade de União dos Palmares, onde os negros se refugiaram
a partir de meados do século XVII.
O folguedo é representado em qualquer época do ano,
geralmente como parte de festividades religiosas. Seus componentes são o
caboclinho; o embaixador; a catirina (homem vestido como escrava negra
carregando nos braços um boneco); o papai velho; o espia dos caboclos; o vigia
dos negros; os reis do encarnado e do azul (índio X negro), com seus trajes que
se assemelham com o de outros folguedos do ciclo do Reisado (reisado,
guerreiro, etc.); calções, manto, blusa de cetim azul ou vermelho, meias
compridas, guarda-peito enfeitado de espelhos, coroa de ouropel e areia
brilhante. Como armas, os reis empunhavam antigas espadas da Guarda Nacional.
Além desses membros, existe a Rainha, menina entre cinco e dez anos, que usa
vestido branco comprido, com guarda-peito de espelhos, capa de cetim enfeitada
e diadema de papelão pintado.
A dança é dividida em três partes: O Roubo e
Batuque, realizados na noite anterior à festa; O Resgate, realizado na manhã
seguinte; e a Luta e Prisão dos Negros. As duas primeiras por não serem muito
apreciadas são por vezes eliminadas da apresentação. Cantam as musiquetas
Dá-lhe Toré e Folga Negro, até que em certo momento o rei dos caboclos desfere
um golpe contra o peito do rei dos negros ferindo-o de morte. Em seguida a
rainha sai pedindo esmolas para o enterro do marido. Entretanto, o próprio rei
dos caboclos ressuscita o rei dos negros, fazendo-o cheirar uma folha de
jurema, e logo depois reinicia o combate que termina com a prisão do rei dos
negros.
Um fato no mínimo estranho é que, com o fim da
luta, os negros festejam sua própria derrota. Primitivamente os quilombos não
terminavam dessa forma com os negros sendo derrotados, é possível que brancos
europeus tenham reelaborado uma nova versão de um alto mais primitivo
(quicumbre) [1],
ajustando o folguedo ao fato palmarino. A própria existência de uma rainha
deve-se, para alguns folcloristas, a uma “herança” do auto dos congos, que por
sua vez já era uma representação das mouriscadas e morrisdançes europeias,
adaptadas em cada país, ajustando-se às condições históricas e tradicionais de
cada local. Entretanto, contrariando esta versão, há a lenda ou tradição que
diz que: “Zumbi fora casado com uma
branca, de nome Maria, filha de um senhor de engenho de Porto Calvo, raptada
(ainda jovem) pelos negros”. Para muitos, o quilombo simboliza esta
história, já que o senhor de engenho, tendo sua filha raptada, saiu com o
auxílio dos índios à captura do líder negro, daí a existência de uma rainha no
folguedo, afinal para os pobres e escravizados negros a menina, filha de homem
abastado economicamente, “fazia” bem esse papel. Devido a tantas versões é
quase que impossível chegar a uma conclusão histórica acerca da origem da dança
dos quilombos.
Na região de Limoeiro de Anadia, a versão primitiva
do folguedo teve seu início a partir da chegada dos primeiros escravos negros
por volta do final do século XVIII. À noite, após os trabalhos penosos
realizados nas fazendas de gado e nos engenhos, os negros se reuniam para
praticar a capoeira e a luta simbólica entre negros e índios.
No final do século XIX, um escravo forro, conhecido
como João Gruta, procedente de Alagoas (Marechal Deodoro), onde já tinha
experiência em apresentações naquela localidade, resolve vir para Limoeiro,
onde começa a organizar a dança típica das senzalas para apresentações em praça
pública, nas festividades alusivas a São Sebastião e de Nossa Senhora da
Conceição.
A partir de 1909, Antônio Jacinto, proprietário da
fazenda Gravatá, em Limoeiro, passa a ser o organizador da dança folclórica dos
quilombos, estruturando e introduzindo as vestimentas tradicionais como
conhecemos na atualidade, e aí sim começa a ser construída a fama de ser um dos
melhores de Alagoas.
No ano de 1924, um menino franzino, de nome Abílio,
resolve participar do Quilombo de Antônio Jacinto com apenas 12 anos de idade.
Tem início a partir daí a história de Abílio Ferreira dos Santos, vulgo Abílio
Grande, com os quilombos de Limoeiro. Suas primeiras participações foram como
caboclinho, tempos depois passou a capitão, embaixador e finalmente rei do
encarnado, a partir de 1960. Desde então, seu Abílio fez com que um folguedo
típico de negros e índios, sendo liderado por um branco, se tornasse famoso e
extremamente conhecido em todo o Estado. Em qualquer lugar que chegasse seu
Abílio e o Quilombo de Limoeiro recebiam homenagens. Em Maceió, em Taquarana e
principalmente em Anadia. Emanuel Fay, bacharel, professor e escritor fez um
poema que em um de seus versos tece o comentário de que os quilombos do seu Abílio era o melhor da redondeza! (RAFAEL,
1994). Este poema, com o título “02 de Fevereiro”, foi uma homenagem à festa da
padroeira de Anadia e a todos que contribuíam para o enriquecimento social e
cultural da região.
Mestre Abílio acabou falecendo, e mesmo após sua
morte, durante muitos anos sua casa recebia visitas de vários estudantes de
Limoeiro e de outras localidades para obter informações sobre o famoso
Quilombo.
Não podemos esquecer a participação de seu Zé Belo,
que, sendo rei do azul ajudou a consolidar a trajetória vitoriosa das
apresentações dos Quilombos. Em seguida, Antônio Belo assumiu o lugar deixado
por seu pai, continuando a sua saga de sucesso no folguedo limoeirense. Outro
importante membro é o Sr. Nelson, que assim como Antônio é um dos responsáveis
por momentos de sucesso vivido pela dança folclórica limoeirense.
Segundo o Dr. Valdávio Ferreira, houve outros
participantes de destaque no folguedo limoeirense, que ele descreve da seguinte
forma:
o contramestre José Silvério; o capitão piloto João
Francisco, mais conhecido como João Piloto; os oficiais Pedro do Mato e
Sampaio; o mestre Ernesto, filho de Dona Felizinda; o piloto José Ferreira, do
Genipapo; o almirante João Juvino da Ribeira; o capitão de mar e guerra José
Afonso e Chico Vicente, empregado de Antônio Dionísio de Albuquerque, que entre
os anos de 1946/47 ajudava no fardamento dos componentes (Valdávio Ferreira, em
16/06/2013).
Com o desaparecimento de alguns de seus mestres, o
Quilombo de Limoeiro passou por momentos difíceis, mas com a ajuda da população
irá voltar a ter o brilho que tinha no passado. Para o bem da cultura, é o que
todos esperam. Fonte: Crônica Geral de Limoeiro de Anadia (inédito), Gilberto Barbosa Filho.
Antigos componentes do Quilombo de Limoeiro.
Membros dos Quilombos descem as ladeiras de Limoeiro.
Foto 2012/13, autor desconhecido.
Os
Quilombos Mirins de Limoeiro em apresentação para o programa Terra e Mar da
Gazeta na frente da Matriz de Limoeiro. Foto, do autor, 30 de abril de 2014.




