Ensaios sobre Alagoas

segunda-feira, 4 de junho de 2018


Quilombo
Explosão de Cultura em Limoeiro



O Quilombo ou Dança dos Quilombos, existente em Alagoas, inclusive o de Limoeiro de Anadia, é considerado por muitos historiadores como uma sobrevivência do Quilombo dos Palmares, situado na Serra da Barriga, na atual cidade de União dos Palmares, onde os negros se refugiaram a partir de meados do século XVII.
O folguedo é representado em qualquer época do ano, geralmente como parte de festividades religiosas. Seus componentes são o caboclinho; o embaixador; a catirina (homem vestido como escrava negra carregando nos braços um boneco); o papai velho; o espia dos caboclos; o vigia dos negros; os reis do encarnado e do azul (índio X negro), com seus trajes que se assemelham com o de outros folguedos do ciclo do Reisado (reisado, guerreiro, etc.); calções, manto, blusa de cetim azul ou vermelho, meias compridas, guarda-peito enfeitado de espelhos, coroa de ouropel e areia brilhante. Como armas, os reis empunhavam antigas espadas da Guarda Nacional. Além desses membros, existe a Rainha, menina entre cinco e dez anos, que usa vestido branco comprido, com guarda-peito de espelhos, capa de cetim enfeitada e diadema de papelão pintado.
A dança é dividida em três partes: O Roubo e Batuque, realizados na noite anterior à festa; O Resgate, realizado na manhã seguinte; e a Luta e Prisão dos Negros. As duas primeiras por não serem muito apreciadas são por vezes eliminadas da apresentação. Cantam as musiquetas Dá-lhe Toré e Folga Negro, até que em certo momento o rei dos caboclos desfere um golpe contra o peito do rei dos negros ferindo-o de morte. Em seguida a rainha sai pedindo esmolas para o enterro do marido. Entretanto, o próprio rei dos caboclos ressuscita o rei dos negros, fazendo-o cheirar uma folha de jurema, e logo depois reinicia o combate que termina com a prisão do rei dos negros.
Um fato no mínimo estranho é que, com o fim da luta, os negros festejam sua própria derrota. Primitivamente os quilombos não terminavam dessa forma com os negros sendo derrotados, é possível que brancos europeus tenham reelaborado uma nova versão de um alto mais primitivo (quicumbre) [1], ajustando o folguedo ao fato palmarino. A própria existência de uma rainha deve-se, para alguns folcloristas, a uma “herança” do auto dos congos, que por sua vez já era uma representação das mouriscadas e morrisdançes europeias, adaptadas em cada país, ajustando-se às condições históricas e tradicionais de cada local. Entretanto, contrariando esta versão, há a lenda ou tradição que diz que: “Zumbi fora casado com uma branca, de nome Maria, filha de um senhor de engenho de Porto Calvo, raptada (ainda jovem) pelos negros”. Para muitos, o quilombo simboliza esta história, já que o senhor de engenho, tendo sua filha raptada, saiu com o auxílio dos índios à captura do líder negro, daí a existência de uma rainha no folguedo, afinal para os pobres e escravizados negros a menina, filha de homem abastado economicamente, “fazia” bem esse papel. Devido a tantas versões é quase que impossível chegar a uma conclusão histórica acerca da origem da dança dos quilombos.
Na região de Limoeiro de Anadia, a versão primitiva do folguedo teve seu início a partir da chegada dos primeiros escravos negros por volta do final do século XVIII. À noite, após os trabalhos penosos realizados nas fazendas de gado e nos engenhos, os negros se reuniam para praticar a capoeira e a luta simbólica entre negros e índios.
No final do século XIX, um escravo forro, conhecido como João Gruta, procedente de Alagoas (Marechal Deodoro), onde já tinha experiência em apresentações naquela localidade, resolve vir para Limoeiro, onde começa a organizar a dança típica das senzalas para apresentações em praça pública, nas festividades alusivas a São Sebastião e de Nossa Senhora da Conceição.
A partir de 1909, Antônio Jacinto, proprietário da fazenda Gravatá, em Limoeiro, passa a ser o organizador da dança folclórica dos quilombos, estruturando e introduzindo as vestimentas tradicionais como conhecemos na atualidade, e aí sim começa a ser construída a fama de ser um dos melhores de Alagoas.
No ano de 1924, um menino franzino, de nome Abílio, resolve participar do Quilombo de Antônio Jacinto com apenas 12 anos de idade. Tem início a partir daí a história de Abílio Ferreira dos Santos, vulgo Abílio Grande, com os quilombos de Limoeiro. Suas primeiras participações foram como caboclinho, tempos depois passou a capitão, embaixador e finalmente rei do encarnado, a partir de 1960. Desde então, seu Abílio fez com que um folguedo típico de negros e índios, sendo liderado por um branco, se tornasse famoso e extremamente conhecido em todo o Estado. Em qualquer lugar que chegasse seu Abílio e o Quilombo de Limoeiro recebiam homenagens. Em Maceió, em Taquarana e principalmente em Anadia. Emanuel Fay, bacharel, professor e escritor fez um poema que em um de seus versos tece o comentário de que os quilombos do seu Abílio era o melhor da redondeza! (RAFAEL, 1994). Este poema, com o título “02 de Fevereiro”, foi uma homenagem à festa da padroeira de Anadia e a todos que contribuíam para o enriquecimento social e cultural da região.          
Mestre Abílio acabou falecendo, e mesmo após sua morte, durante muitos anos sua casa recebia visitas de vários estudantes de Limoeiro e de outras localidades para obter informações sobre o famoso Quilombo.
Não podemos esquecer a participação de seu Zé Belo, que, sendo rei do azul ajudou a consolidar a trajetória vitoriosa das apresentações dos Quilombos. Em seguida, Antônio Belo assumiu o lugar deixado por seu pai, continuando a sua saga de sucesso no folguedo limoeirense. Outro importante membro é o Sr. Nelson, que assim como Antônio é um dos responsáveis por momentos de sucesso vivido pela dança folclórica limoeirense.
Segundo o Dr. Valdávio Ferreira, houve outros participantes de destaque no folguedo limoeirense, que ele descreve da seguinte forma:

o contramestre José Silvério; o capitão piloto João Francisco, mais conhecido como João Piloto; os oficiais Pedro do Mato e Sampaio; o mestre Ernesto, filho de Dona Felizinda; o piloto José Ferreira, do Genipapo; o almirante João Juvino da Ribeira; o capitão de mar e guerra José Afonso e Chico Vicente, empregado de Antônio Dionísio de Albuquerque, que entre os anos de 1946/47 ajudava no fardamento dos componentes (Valdávio Ferreira, em 16/06/2013).

Com o desaparecimento de alguns de seus mestres, o Quilombo de Limoeiro passou por momentos difíceis, mas com a ajuda da população irá voltar a ter o brilho que tinha no passado. Para o bem da cultura, é o que todos esperam. Fonte: Crônica Geral de Limoeiro de Anadia (inédito), Gilberto Barbosa Filho.



   Antigos componentes do Quilombo de Limoeiro. 



Membros dos Quilombos descem as ladeiras de Limoeiro. Foto 2012/13, autor desconhecido.


Os Quilombos Mirins de Limoeiro em apresentação para o programa Terra e Mar da Gazeta na frente da Matriz de Limoeiro. Foto, do autor, 30 de abril de 2014.











[1]     Dança africana.

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